Jornal Têxtil (JT) – Tem sido o motor das mais importantes iniciativas que se têm desenrolado na área dos têxteis técnicos ao nível nacional – a quarta edição do simpósio internacional "How to enter technical textile markets", que acaba de ter lugar no Porto, o Fórum Têxteis do Futuro (FTF), a internacionalização do FTF em Frankfurt e em Atlanta, o directório de Têxteis Técnicos e Funcionais. Que leitura faz da evolução deste sector em Portugal? Fernando Merino (FM) – O directório dos têxteis técnicos e funcionais identifica 66 empresas a trabalhar neste sector. Serão pouco mais de 40 exclusivamente em têxteis técnicos, pelo que admitindo que ainda há casos que não estão catalogados, teremos meia centena de empresas em Portugal exclusivamente dedicadas aos têxteis técnicos e funcionais. Por outro lado, temos o consumo nacional. O mercado nacional é diminuto e embora as empresas possam, umas mais que outras, procurar oportunidades noutros mercados, o sector será mais robusto e poderá crescer se existirem condições favoráveis em Portugal. Se os EUA, que têm custos de mão-de-obra elevados, protegeram desde sempre a exploração de algodão e ainda o fazem, porque é que não será possível com os novos modelos de negócio criar condições favoráveis e até de protecção dos nossos activos? Vai depender muito das plataformas que possam vir a ser constituídas. Poder-se-ão chamar pólos de competitividade ou ter até outro nome. Mas é de facto fundamental que exista uma estratégia que alinhe competências e objectivos. Desta forma, o sector poderá crescer, convertendo empresas ou simplesmente fazer com que outras apareçam.JT – Em que medida as referidas iniciativas poderão fomentar o desenvolvimento do sector dos têxteis técnicos nacionais? FM – Estas iniciativas pretendem mobilizar as empresas do sector têxtil e do vestuário, mas também o sistema científico e tecnológico, os investigadores e os empreendedores. Há sectores da administração pública interessados em lançar novas iniciativas, mas também há um sector privado à procura de novos projectos, pelo que esperamos ao dinamizar estes eventos surjam novas abordagens no domínio dos têxteis técnicos que facilitem a oferta e procura de tecnologias, mas também de conhecimentos e de investimentos. É necessário que esta mensagem chegue também a sectores clientes dos têxteis técnicos, como são por exemplo a aeronáutica e a construção.JT – Apesar dos esforços desenvolvidos, as empresas nacionais continuam a apresentar uma grande lacuna em termos de I&D. Será que desta forma não há o risco de passarem de "fabricantes" de t-shirts a "fabricantes" de têxteis técnicos? FM – Há de facto esse risco. Na segunda metade do século XX, o país tornou-se num transformador, mas essa forma de evolução já acontecia no século XVIII. Era assim que acontecia e não foi inventada por portugueses. Suponho que as transformações de agora são mais profundas, que nem mesmo os países antes associados a mão-de-obra barata, como a Turquia e até mesmo a Índia, escapam ao exercício que é o da permanente introspecção sobre como sobreviver num mercado realmente global. Portanto, neste momento assiste-se a uma competição entre todos e, por isso, a nossa entrada só poderá ser feita nas especializações. Agora importa perceber o que podem ser especializações.JT – Dado o seu know-how e experiência, que "conselhos" daria a uma empresa que pretende converter-se aos têxteis técnicos? FM – É necessário conhecer, estudar e desenvolver. Os americanos foram os campeões da vigilância, quando há uns séculos levaram para os EUA o modelo inglês da indústria têxtil. Mas hoje isto acontece à escala global. Repare que há duas abordagens quando tentamos perceber como está a evoluir o consumo à escala mundial. Temos por um lado os grandes países como o Brasil, Rússia, Índia e China (BRIC), com grandes projectos de investimento interno para os próximos anos. Nesses países vai certamente disparar o consumo nas áreas de cordas, cabos, têxteis para agricultura, construção, geotêxteis, sacos, contentores e embalagens. Por outro lado, em regiões industrializadas como a UE, o Japão e os EUA vão ser mais importantes os projectos nas áreas de aplicações industriais, saúde e higiene, protecção de pessoas e de bens, transportes, desporto e lazer. No caso dos BRIC, estamos a falar de mercados com taxas de crescimento fortes, entre os 3,5% e os 5,5% ao ano, mas com quotas de mercado relativamente fracas no panorama mundial. Já no caso das regiões mais desenvolvidas, estamos a falar de mercados de grande consumo, onde as taxas de crescimento são actualmente fracas no sector dos transportes, moderadas em desporto e lazer, mas fortes em aplicações industriais. Há ainda a área de protecção, onde a tendência não é a de consumos em massa e as taxas de crescimento são moderadas, mas representa uma área com um valor acrescentado enormíssimo. Parece-me que esta análise deixa perceber como é importante avaliar a conjuntura. Por outro lado ainda, e porque a dimensão do nosso mercado será sempre diminuta, é fundamental que as actores que desejem "converter-se" ou até aparecer em cena, procurem identificar nesses mercados e nesses países as oportunidades. Isso pode ser feito nas feiras, até porque em quase todos esses países ou já existe ou está a parecer uma feira de têxteis técnicos. É necessário participar em feiras e em eventos como o simpósio, onde por exemplo se assistiu a um networking de grande intensidade. Os asiáticos que estiveram no Porto também vieram para isso. Isso é a agressividade a funcionar.JT – Assistiu praticamente a todas as edições do simpósio internacional "How to enter technical textile markets". De todas as inovações e de todas as áreas apresentadas até ao momento, quais estão mais próximas de poderem ser bem exploradas pela ITV nacional? FM – Há duas áreas, que embora estejam numa fronteira entre aquilo a que designamos por têxteis técnicos e os denominados têxteis funcionais, me parecem estar naturalmente ao alcance das nossas empresas. Refiro-me aos têxteis bio-funcionais como forma de acrescentar valor e que estão cada vez mais a emergir com novas funções, para novos grupos-alvo e novos mercados e a utilização de nanomateriais. A melhoria da performance e a saúde, por exemplo, são sistematicamente apontadas como referências para a aplicação de nanomateriais o que é um bom indicador sobre os mercados-alvo.JT – Num âmbito mais geral, quais foram as inovações apresentadas ao longo das várias edições deste Simpósio que mais lhe marcaram? FM – Olhando para as diversas edições não destacaria os projectos inovadores, até porque o simpósio não se debruça apenas nas inovações. Tem sempre módulos sobre os mercados, as tecnologias e os produtos, com temas específicos em cada evento e o que se espera é que os participantes passem a dispor de uma espécie de manual de boas práticas e de bons exemplos sobre como entrar no mercado dos têxteis técnicos. De qualquer forma percebe-se alguma evolução no tratamento dos temas. Os não-tecidos são matéria incontornável e para as mais variadas aplicações, mas também os nanomateriais, a funcionalização e a melhoria da performance. Percebe-se que por todo o mundo há cada vez mais técnicos têxteis a trabalhar com especialistas em electrónica, o que confere a este campo dos têxteis inteligentes uma importância cada vez maior. E a evolução parece já não ter retorno. JT – Que balanço faz deste quarto simpósio "How to enter to technical textiles market" que, pela primeira vez, decorreu em Portugal? FM – O simpósio foi o mais participado de sempre. Assistiu gente de quase toda a Europa, mas também de várias partes do Mundo, como Canadá e EUA, Austrália e Indonésia, Índia, Paquistão e Tailândia. Tivemos cerca de 140 participantes, dos quais 30 eram nacionais. Na opinião de muitos, e em particular na do chairman do simpósio, Roshan Shishoo, foi o melhor Simpósio dos 4 organizados até hoje, pelo número e a qualidade dos participantes, assim como pela qualidade das condições colocadas à disposição pela organização portuguesa. Perante aquilo que é possível apresentar em dois dias, foi acima de tudo enriquecedor, ofereceu novidades e facilitou o networking. Aproveito até para lembrar o comentário de um dos participantes da Suécia que se estreava neste tipo de Simpósios, comentando que na hora de decidir sobre vir a este evento, lhe pareceu que Portugal e Têxteis Técnicos seriam uma boa conjugação e um bom motivo para participar. Devo dizer ainda que o sucesso da realização do simpósio no Porto suscitou já a expectativa da repetição em Portugal de uma nova edição.JT – Como é que uma iniciativa internacional deste nível "chega" ao Porto? FM – Existem boas referências de eventos de nível internacional sobre o tema dos têxteis técnicos e temos participado em alguns como assistentes mas também, de alguma forma, como organizadores. Refiro-me ao facto do Citeve participar nos Comités Científicos da Techtextil, Avantex e Aplimatec. Mas o tipo de simpósio que trouxemos para o Porto pareceu-nos, desde a primeira hora, um evento com as características do tipo de simpósio que gostaríamos de organizar em Portugal. Com conteúdos técnicos e científicos q.b. e, por isso, mais direccionado para um público-alvo de decisores e gestores de topo que procuram informação de gestão. O Simpósio insere-se num ciclo que começou em 2002 em Inglaterra, na cidade de Stratford-upon-Avon, passou depois por Praga, na República Checa, em 2004, e Gent, na Bélgica, em 2005. O facto de ter sido o Porto a cidade escolhida, teve muito a ver com uma estratégia que nos pareceu muito adequada, pois deveria acontecer numa cidade carregada de passado histórico e próxima de uma região têxtil voltada para o futuro. Ora exactamente aquilo que caracteriza a capital do Norte.JT – Quem são hoje os nossos principais concorrentes no sector dos têxteis técnicos? E como poderemos colocar-nos no pelotão da frente? FM – Repare que a ITV nacional está a atravessar o período mais turbulento dos últimos vinte anos. A produção deslocou-se para a Ásia e, em particular, para a China, tendo entrado novos actores no circuito internacional que transformaram o paradigma do negócio. Mas nem mesmo os países que antes eram associados a mão-de-obra barata, como a Turquia e a Índia, escapam ao exercício de permanente introspecção sobre como sobreviver num mercado realmente global. O interesse por estas áreas tem crescido, mas também tem crescido do lado de países como a China, a Índia e a Europa de Leste. Interessa por isso perceber as particularidades e as vantagens de entrar nos mercados dos têxteis técnicos. Como poderemos colocar-nos no pelotão da frente dependerá de vários factores, mas posso dar como exemplo aquilo que a parceria Associação Selectiva Moda/Citeve tem vindo a fazer, ao levar empresas portuguesas para os principiais palcos mundiais de têxteis técnicos. Aparecemos ao nível de países como a Itália, o Canadá e temos até sido destacados pela dimensão da participação nacional, por exemplo, na Avantex em Frankfurt. Esse esforço já é reconhecido no estrangeiro e é através desse tipo de participação que as empresas estão mais próximas das oportunidades e também dos principais concorrentes.JT – Na sua opinião, quais vão ser as forças condutoras dos novos desenvolvimento dos têxteis técnicos: avanços nos polímeros e tecnologias de fabricação, preservação do meio ambiente, crescimento das aplicações têxteis em domínios não-convencionais?… FM – …Todas essas que refere me parecem muito pertinentes, e serão de facto bons alvos paras as nossas iniciativas, mas eu destacaria aquilo que considero formas originais de inovação e que poderiam até constituir-se como marca nacional. Existem em Portugal espécies únicas de recursos marinhos e vegetais e, do ponto de vista da investigação, existem excelentes condições para o estudo desses recursos. As plantas são uma fonte excelente de extractos de aromas, assim como de outras substâncias indutoras de bem-estar. Por outro lado, parece-me que a abordagem da inovação do ponto de vista do estudo dos seres vivos, animais e vegetais, pode constituir-se como uma plataforma de desenvolvimento de soluções muito promissoras.











